sábado, 31 de janeiro de 2015

No Alto da Chapada , vou tomar banho de óculos.

Bem cedo na academia encontro minhas duas amigas ( duas senhoras sexagenárias maravilhosas) na esteira de corrida. Toca no rádio uma música que eu gosto muito (Losing my religion do REM) e começo a cantar. As duas reparando a minha cantoria. Termina a música e uma delas fala: Menino , tu é tão inteligente !!! Uma musica complicada dessa e tu sabe cantar todinha” ( Mal sabe ela que eu no começo dos anos 2000 frequentava o Ritz e essa música era carimbada de tanto tocar por lá ) sorri lisonjeado . Ela continuou a conversar perguntando:” Será que tu não consegue ver o nome de uma música que eu adoro, mas só sei um trecho ?” Respondi que poderia tentar. Ela continuou: “ A música de uma cantora gasguita, do diabo da voz fina. E tem um trecho que fala assim: No alto da chapada vou tomar banho de óculos...” Pensei, tentando identificar a música. Achei a letra interessante já que falava de uma pessoa na Chapada que tomava banho de óculos...Lembrei das cantoras gasguitas brasileiras. Gal Costa, Vanessa da Mata e a Tetê Espíndola. Bingo!!! : Só pode ser a Tetê, porque fala em Chapada e a letra é estranha ( No alto da chapada vou tomar banho de óculos...) falei pra ela da possibilidade de ser a Tetê Spindola e ela imediatamente pegou o seu smartfone e acessou a internet. . Quando vi , estávamos eu ,ela ,a minha outra amiga , e o professor aboletados sob o celular, como quem procura um tesouro. “ Vou colocar pra tocar !!!” falou ela. Nos primeiros acordes da Tetê ela gritou: “É essa mesmo!!! Que linda essa música. Que linda!!!” Colocou os fones e foi feliz pra esteira ouvir sua música. Só que a letra da música não tinha nada de “no alto da chapada vou tomar banho de óculos” sendo que era totalmente diferente da versão dada por ela .A amiga, arengando com ela , falou : “Fulana tu é muito egoísta mesmo!!! Encontra uma música e vai ouvir sozinha!!! Affe....” E ela então Retrucou : Nãaa... Eu vou ouvir primeiro sozinha, porque esse momento é só meu... “ E continuou a ouvir a-sua-música-da-chapada-que–vai-tomar-banho-de-óculos, feliz da vida. Sei bem como é encontrar algo ou alguém que vinha procurando, por muito tempo, de modo atrapalhado, equivocado e criativo, e que por obra e graça do destino acaba encontrando. Talvez essas descobertas, sejam o que algumas pessoas chamam de “felicidade” e esses presentes sempre surgem de forma inusitada e em locais surreais. Sempre são dados quando se menos espera. Quando você, meio que desistindo da procura, acha que nunca vai encontrar. Achei legitimo e lindo esse egoísmo terno e adocicado da minha amiga. Adoraria ir pra Chapada tomar banho de óculos com ela, e cantando assim, desse jeitinho, a música da Tetê Spindola. E a plenos pulmões, comemorando a maravilha dos encontros e descobertas. Sem dissimular a nossa maravilhosa amorosidade atarantada.

Paranorman

Dia desses fui cortar o cabelo. E como adoro salões de beleza e ônibus , já fui preparado pra alguma marmota Chegando lá me deparo com mãe e filha nas cadeiras de cabeleireiro com uma espécie de papel - alumínio na cabeça. A Filha, uma criança de uns 9 anos, que já estava quase terminando o seu “penteado”. Terminado o penteado da menina, esta senta do meu lado aguardando a mãe e vendo TV. A Mãe solta : “ Ai mulé. Meu cabelo tava tão ressecado!!! E eu não tenho dormido direito e tô com essa olheiras. Tomara que meu cabelo fique bom !!!!” E a menina indiferente assistindo TV. Finalmente a cabeleireira termina o seu trabalho finalizando o corte da mãe com uma escova. Depois de puxões, calores e repuxões no picumã, a mulher olha no espelho e conclui : “ ficou ótimo !!!”. Radiante, pergunta pra filha “ Minha filha, o que vc achou do meu cabelo?” A menina vira a cabeça, olha pro cabelo da mãe e dispara: “Num gostei não!!! Tá igualzim ao Paranorman “ .A cabelereira ,sem graça, então dispara ; “ Vou chamar a maquiadora!!” A menina volta ver televisão "entediadíssima", deixado a mãe com ódio, a manicure atônita e eu morrendo de vontade de rir e de ser o melhor amigo daquela menina entediada do Joaquim Távora.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

O oitavo pasageiro.

Como todos vcs já sabem meus amores,coisas inusitadas acontecem comigo.Hoje eu, assim que subi no ônibus, fui ver se conseguia encontrar um lugar pra sentar. De longe avistei um senhor de uns 60 anos com uma moça bem magra, muito branca , com um cabelo ruivo, muito brilhante e sedoso. Ví que não tinha nenhum lugar e permaneci em pé, com minha mochila e meus pensamentos fantásticos. Eis que sou puxado pra realidade , com uma discussão entre o senhor e uma moça de uns 30 anos. A moça questionava se ele iria pagar duas passagens, porque aquilo era um absurdo. Fiquei observando e ví que a mulher, irritada, dava tapas na cabeça da pobre mulher ruiva que estava sentada ao lado do senhor.Ela berrava dizendo : Pra ocupar 2 lugares tem que pagar duas passagens!! Pensei que o senhor não tinha pago a passagem da moça que estava com ele, que ela tivesse passado por baixo ou passado junto com esse senhor. Para me oferecer e pagar a passagem da mulher,fui chegando mais perto e ví os olhos esbugalhados e inertes da pobre mulher ( vem marmota, pensei ...). Só então notei que não era uma mulher . Era uma manequim de lojas e ainda estava sem os braços.Lembrei imediatamente da boneca Guigui, da minha irmã, da qual morria de medo. Como morro de medo de manequim de loja voltei pro meu lugar e fiquei de longe observando a discussão. Então o senhor se levantou, e pagou a passagem da sua companheira. E ainda foi com vale transporte eletrônico.

Frase de mãe.

Minha mãe tem umas frases ótimas.: "Eu tô com crise de labirintite. Tô igual a uma pomba gira desorientada". Eu ví literalmente. Tal e qual. Não pude conter a gargalhada.

Ato falho.

Escrevendo revisando as considerações finais da minha dissertação, ví um erro que revela muito de minha alma cafuçu. Ao invés de escrever tópico eu escrevi topic. Ato falho e Freud explica.

Murila.

Voltando de táxi do Shopping Del paseo, eis que eu pego um táxi com um motorista que parecia ter saído diretamente da minha cabeça ( Se é que não saiu mesmo ) Pra começar ele era o sósia do "Zé bonitinho" ( Lembram ?). No meio da viagem o celular dele toca e adivinhem qual era o toque ? Girl you know it´s true. do Milli Vanilli.. Quase caí na gargalhada. Depois, ele desandou falar com sua esposa de nome "Murila" ( isso mesmo, Murila!!!) sobre a "queimoterapia" de um amigo . Lá pras tantas ele solta uma gargalhada daquelas de filme de terror. E mais outra. E mais outra. De repente eu tb estava rindo da risada de filme de terror dele. Da Murila, da "queimoterapia". Da nau de loucos que é o cotidiano.E de mim por perceber isso.Me diverte saber que somos todos loucos. Deliciosamente loucos.

Esvoaça amiga!!!!

Duas meninas conversando. Uma notoriamente triste porque terminou um namoro, e a outra tentando consolar . No meio da conversa, entre sussurros, soluços e olhos vermelhos, a amiga ( Consoladora) solta : Mulher não fica assim não. Coisa feia.... Esvoaça amiga !!!! Esvoaça !!!!!. Depois desse conselho aéreo, por assim dizer, a amiga (triste) resolveu seguir os conselhos da amiga (alegre). Soltou um riso esvoaçante, enxugou as lágrimas e falou : "Mulher vamos ali comer um churros e mangar do povo !!!!" Deu uma vontade quase sem controle de ir comer aqueles churros, mangar do povo e esvoaçar com elas. Não pude, por motivos terrivelmente racionais. Agora estou aqui , com um sorriso bobo nos lábios, lendo Foucault ( sempre ele, roll on do cão !!!), e com uma inveja adocicada e terna, a esvoaçar na minha cabeça.

Trote?

Ligaram pro meu telefone perguntando pelo Sr." Xatileu". Agora me deu uma vontade grande de mudar de nome.

O elevador.

Pela manhã saí pra comprar pão um doce pro café. Entro no elevador e encontro um casal. O marido falando carinhosamente com a sua esposa. Até aí tudo bem. Mas, percebi que ele tava falando com ela com aquela "vozinha". Até aí tudo bem. Mas ele tava falando igual ao Barney do Flintstones !!! Eu rezando pro elevador chegar logo no térreo, e pensando uma porção de coisas ruins para não rir. Eis que a namorada fala assim : " Menino para de fazer isso!!! tá deixando o rapaz constrangido". Mas , como sou devoto de "Nossa Senhora da ironia e do sarcasmo" retruquei , (dis) simulando uma nesga de comoção: "Menina, relaxa. Isso é lindo. Originalíssimo.... " Comprei meu pão e ganhei a manhã. Detalhe: a voz do Barney, não sai da minha cabeça.

A malagradecida.

Fui comprar uma mala, em uma determinada loja da cidade, para viajar neste domingo. Fui com o propósito de comprar uma mala compacta e que desse pra eu identifica-la de imediato na esteira de bagagens, pois sempre pegava a mala errada ou, esperava todo mundo pegar a sua para que não houvesse dúvida. Chego na loja, apinhada de gente, e pergunto a uma vendedora muito simpática , se havia uma mala com as características que mencionei acima. Ela entrou por uma portinha ( de imediato imaginei um portal que dava acesso ao Planeta das malas governado por uma mala Louis Vuitton ) ,demorou um pouquinho e volta toda simpática & sorridente dizendo que tinha achado uma ótima. Eis que para a minha surpresa era uma mala da galinha pintadinha, muito colorida e com estampas da personagem a se destacar na mala. Recusei de imediato e ela me confidenciou que tinha um senhor com o mesmo problema que eu e que comprou uma do BEN 10. Por um momento , quase comprei a mala da galinha pintadinha, para recompensar o esforço da moça . Mas em nome da discrição que me é peculiar, acabei optando pelo modelo mais tradicional - low - profile. Talvez coloque uma etiqueta com meu nome ou um cadeado pintado para sinalizar que a mala é minha. Ou não. Cheguei em casa, contei essa história e duvidaram da veracidade. Agora não sei se é verdade ou fruto da minha imaginação.... E se for ?

Every Bode running.

Como é sabido sou advogado, todavia detesto usar terno por achar nosso clima tropical inapropriado para tal indumentária. Mas no Direito ,na imensa maioria das vezes, “ o hábito faz o monge” e quanto mais chique e caro for o terno que o advogado veste, mais competente ele é. Assim que me formei ganhei uma graninha razoável em um de meus primeiros processos. Calhou de eu ter que comparecer á uma audiência na cidade de Ubajara, uma cidade serrana linda, com clima bem agradável aqui do interior do Ceará. Era uma causa complexa. Uma empresa de agronegócio, pertencente a um holandês, tinha invadido uma boa parte da pequena propriedade de meu cliente, um pequeno agricultor que vivia do que plantava. Para representar meu cliente, eu queria “fazer bonito“ diante do “capital-internacional–explorador”. Comprei um terno novo e caro. Um terno de lã fria, bem cortado e um sapato lustrado. Peguei o ônibus no dia anterior a audiência, devido a grande distância de Ubajara em relação a Fortaleza .Chegou o dia da audiência. Na verdade era uma perícia. A medição do terreno para que houvesse a produção de provas. Pois bem, fomos eu, o meu cliente,o “gringo”, o Advogado dele e o perito. O local, de mata fechada,tinha um riacho o qual se alcançava a margem oposta com uma tábua fina e estreita. E eu chiquérrimo , com meu terno de lã fria e meu sapato lustrado, no meio do mato. A cerca , que era o ponto de controvérsia, ficava no final da propriedade e para chegar lá teríamos que atravessar a tábua estreita por cima do rio.” Ah meus deus !!!!” pensei lembrando de minha coordenação motora excelente. Chegamos na famigerada “ponte” e fiquei olhando todos passarem. Quando chegou a minha vez fui devagar, fingindo estar equilibrado e calmo. Passei no teste raspando, chegando á outra margem, Suspirei aliviado, olhando para o meu sapato lustrado e o meu terno de lã fria. “Intactos...” pensei feliz e vitorioso. Caminhamos um pouco pela trilha estreita, sempre em fila indiana e eu (como sempre ) o último da fila.Escuto um grito, precedido e um barulho de passos apressados no mato e na terra molhada. “Olha o bode!!!!!” Gritou alguém em desespero. “Um bode aqui ???”pensei eu. “ mas será que não foi o gringo que falou everybody?” Fiquei parado. De repente, passa o gringo, o perito,o advogado, o meu cliente, o assistente e o do perito, desembestados, correndo. Como sou lento, achei aquilo estranho e fiquei onde estava. Num relance avisto um bode. Chifrudo, com aqueles olhos castanhos sem pupila e bufando.”Ih... um bode. Vou correr” pensei eu. Iniciei a minha fuga do bode maluco eu só conseguia pensar em não sujar o meu terno de lã fria e meu sapato lustrado. Me esforcei tanto que estava parecendo aqueles corredores de corrida rústica, meio correndo meio andando. O bode se aproximando. Finalmente avisto a ponte estreita sobre o riacho. Olho pra trás e o bode raivoso estava quase me alcançando. Corro de verdade e alcanço a ponte, dou início a travessia, que nunca foi tão longa. Quando estou bem no meio da ponte, me desequilibro e.... Tchibum!!! Caio no Riacho com meu terno de lã fria e meu sapato lustrado. Olho pra uma margem e vejo o bode, bufando e raspando a pata dianteira no chão. Olho pro outro lado e vejo a comitiva estupefata com o meu “mergulho“ e prendendo o riso. Saio do rio ,absolutamente encharcado, com a ajuda daquelas pessoas,e o que era pra ser um procedimento tenso ( no caso a perícia) acabou se transformando em algo leve. No final de tudo ainda ganhei uma toalha felpuda do gringo, e uma garrafa de mel do meu cliente. Alguns meses depois recebo a sentença pelo correio. Havia sido favorável ao meu cliente. Ligo pra ele para dar a boa nova, ele fica feliz, agradece, mas diz que o gringo tinha voltado atrás e que a relação deles estava “boa demais”. Que não precisava mais da sentença. A vida talvez seja assim. Por mais que vc mergulhe, por mais que vc entre na chuva e se molhe, os acontecimentos seguem uma lógica própria, que independem da sua vontade. Ou não.

Um tal Maurício.

Depois de muito tempo, voltei a frequentar a Biblioteca do CH da UFC. Assim que chego sou brindado com a seguinte cena : Duas amigas e um amigo conversando : Uma delas muito feliz pois tinha conseguido conquistar um tal de Maurício. E ela toda prosa falando das qualidades do tal Maurício. O amigo ,com cara de tédio, lança : "Fulana, pra vc uma poesia linda que acabei de fazer: Mauricio de Nassau conseguiu atrair o gênio do mau". A amiga fez cara de bicho, os outros de riso e eu de paisagem, pq eles perceberam que eu estava ouvindo a conversa. Obviamente, estou aqui dissimulando uma hiper concentração que, em absoluto, é uma característica de minha personalidade avoada. Divido essa história com vcs. Só com vcs....

O vampiro do Joaquim Távora.

Vejo na programação do cinema do Dragão do mar a (re) exibição do filme "Fome de viver". Falo todo animado e pergunto se querem assistir o filme. Respondem "sim, vamos " A pessoa abre a geladeira, tira um pote gigante de Nutella e lança ; "Vc acha que eu tenho fome de viver ?" e lança a primeira colherada na boca, se preparando para a segunda. Não pude conter a gargalhada. Por dentro obviamente.

O cabelo.

No hospital, conversando com meu pai, que estava internado, falei assim : "Pai se vc ficar bom rápido e receber alta amanhã, vou ter que pagar uma promessa" Meu pai sorrindo , todo satisfeito, olhando pro meu cabelo ,exclama: "Já sei!!! Vai cortar o cabelo !!!" Respondo : " Não pai, não é isso !!!" Ele : " Tava muito bom pra ser verdade!!!" Não fala mais nada vira pro lado , resmungando contrariado e dorme. Percebi que ele estava ótimo, tanto que recebeu alta no mesmo dia.

Até que nem tão psicodélico assim...

Candidata á frase mais genial de 2015 : " Sou formada em pedagogia. mas topo tudo. Hj o profissional tem que ser psicodélico". Penso que ela trocou o termo "polivalente" por "psicodélico". Se fosse em uma entrevista de emprego, eu a teria aprovado. Com aumento no primeiro mês.

Em uma manhã.....

Na rua uma menina grita: " Mãe,olha aquele nosso vizinho que tem sempre a cara de sono " e aponta , obviamente, pra mim. A mãe finge que não ouviu e me cumprimenta. Eu , embevecido e apaixonado, olho pra menina e penso : " Vou ter uma filha".

Conforme o combinado

Acho que um dos melhores lugares para entender a diversidade humana são os ônibus. Abstraindo a péssima qualidade de nosso sistema de transporte coletivo, eu simplesmente adoro andar de ônibus, para reparar e perceber as pessoas e seus mundos infinitos e fascinantes. Dia desses eu estava invariavelmente no ônibus e do meu lado se senta uma moça. Ela falava ao celular e sempre que terminava um argumento com seu interlocutor utilizava a expressão “conforme o combinado”. Parece que estava tentando convencer o seu interlocutor a afazer algo que havia combinado previamente, mas que por algo ( que foge ao meu entendimento ) não foi realizado. Isto foi o estalo para os meus selvagens e indomáveis pensamentos. Quase nada na minha vida foi “conforme o combinado”. Na minha adolescência, enquanto meus amigos estudavam computação, eu preferi estudar astrologia . Estudei no colégio militar e meus pais esperavam , conforme o combinado, que eu seguisse a carreira. Acabei sendo advogado. Conforme o combinado, espera-se que um advogado, tenha um escritório, ganhe dinheiro , ande de terno e tudo aquilo que se espera de um advogado. Segui pelo lado oposto. Enveredei pela advocacia em Direitos humanos e não ando de terno. Conforme o combinado, se espera que um advogado que queira ser professor, faça mestrado em Direito. Eu, fiz mestrado em políticas públicas . Conforme o combinado temos que ser sagazes e ultra conectados para assim, sermos bem sucedidos. Eu sou distraído e desatento e tenho um carro popular que ainda está sendo financiado. Espera-se, conforme o combinado, que quem tenha um carro saiba dirigir, Eu tenho pânico de trânsito, carros, cruzamentos, estradas, sinais e nem carteira tenho. Talvez viver não seja “conforme o combinado” .Talvez seja nesta imprevisibilidade, nesta precariedade da relação entre desejo e realidade, que resida a beleza da vida. O ônibus deu uma freada busca e acordei de meus pensamentos. Ví que a menina do celular tinha ido embora e que eu havia passado( e muito) do lugar que eu deveria descer. Agora me pergunto ingênuo, sem nenhum subsídio de mim mesmo, se isto aconteceu ou não, conforme o combinado.

O amaciante atropelado

Hoje, algumas pessoas acham que é um dia morto. Dia entre feriados de final de ano e essas coisas. Mas pra mim foi o dia mandar o um documento importante , pelo correio, cujo prazo acaba hj .Depois de rodar a cidade toda finalmente encontrei a agência central. ( After hours do Martin Scorcese perde... rsrs ) Coloquei minha cartinha e fui pegar o ônibus e ir pra casa. Como todo cafuçú, que se preze não posso ver um supermercado aberto que sempre lembro de alguma coisa pra comprar. Entrei no tal mercado, que invariavelmente estava lotado ( para um Ser com alma cafuçu quanto mais cheio o mercado estiver melhor.... ) e fiz minhas comprinhas. Quando estava no caixa lembrei que tinha esquecido do amaciante de roupas. Pedi pra caixa esperar um pouco enquanto eu iria pegar e ela gritou “ nãaaaaaaaa. Ó o tamanho da fila.... dá não ó!!!” Saí da fila resignado e sem graça e fui na seção de amaciantes. Peguei o tal produto e fui novamente pra fila. Espera, espera e mais espera, e como trilha sonora um Kenny G cafona, anos 90 e um homem com uma caixa de som gritando no meu ouvido as promoções. Cheiro verde, papel higiênico, Iogurte Grego, mata formigas.... Enfim produtos que não me interessavam. Depois de uma longa espera, finalmente passei com a mesma caixa que me negou a gentileza. Sorri cínico & vitorioso pra ela, que me deu uma rabissaca com seu cabelo mal alisado. E eu pensando os maiores absurdos dela. Tipo:abrir o amaciante e jogar na cabeça,ou obrigar ela a beber todo o amaciante para ver se sua alma dura ficava macia. De repente ,sou tirado de meus devaneios com ela dizendo que eu teria que embalar tudo porque não tinha embalador. Embalei tudo ,e o amaciante só em um saco sem o reforço. Saio do mercado e avisto o meu ônibus parado. Feliz, desabo na corrida... Quando estou atravessando a avenida o saco com o amaciante rompe, o motorista me vê fecha a porta e enseja uma saída com o ônibus.. E eu atônito e dividido entre o ônibus e o amaciante Olho pra avenida movimentada e meu amaciante completamente indefeso e intacto no chão, O (meu) ônibus saí e escuto o barulho abafado e vejo a poça de meu amaciante no chão. O ônibus tinha atropelado o meu amaciante - troféu conquistado de modo sofrido. Volto no mercado e peço pra caixa ao lado da caixa antipática pra passar na frente de todos somente o outro amaciante. Ela sorri e concorda. Pago e embalo o amaciante ( agora com duas sacolas pra reforçar) . Antes de sair do mercado , olho pra caixa antipática e com o olhar da Maga patológica, desejo que ela perca o último ônibus da noite e seja obrigada a voltar com um mototáxi bem fedorento e ainda pegue piolho. Pego o ônibus, depois de esperar uns 30 minutos. Chego em casa esbaforido e pensando todos os tipos de impropérios contra a caixa, e quando vou guardar o tal da amaciante descubro eu ainda tinham dois vidros fechados. Bufo de ódio e penso que a caixa mal humorada tinha um espelho, que refletiu o sortilégio que joguei pra ela, voltando integralmente para mim. Tomo um banho para esfriar a cabeça e ligo a TV. Ainda to com vontade de voltar lá e jogar o amaciante todo na cabeça e todas aquelas coisas que pensei Talvez faça isso um dia. Em sonho.E olha que meu defeito maior é o rancor.