sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Every Bode running.

Como é sabido sou advogado, todavia detesto usar terno por achar nosso clima tropical inapropriado para tal indumentária. Mas no Direito ,na imensa maioria das vezes, “ o hábito faz o monge” e quanto mais chique e caro for o terno que o advogado veste, mais competente ele é. Assim que me formei ganhei uma graninha razoável em um de meus primeiros processos. Calhou de eu ter que comparecer á uma audiência na cidade de Ubajara, uma cidade serrana linda, com clima bem agradável aqui do interior do Ceará. Era uma causa complexa. Uma empresa de agronegócio, pertencente a um holandês, tinha invadido uma boa parte da pequena propriedade de meu cliente, um pequeno agricultor que vivia do que plantava. Para representar meu cliente, eu queria “fazer bonito“ diante do “capital-internacional–explorador”. Comprei um terno novo e caro. Um terno de lã fria, bem cortado e um sapato lustrado. Peguei o ônibus no dia anterior a audiência, devido a grande distância de Ubajara em relação a Fortaleza .Chegou o dia da audiência. Na verdade era uma perícia. A medição do terreno para que houvesse a produção de provas. Pois bem, fomos eu, o meu cliente,o “gringo”, o Advogado dele e o perito. O local, de mata fechada,tinha um riacho o qual se alcançava a margem oposta com uma tábua fina e estreita. E eu chiquérrimo , com meu terno de lã fria e meu sapato lustrado, no meio do mato. A cerca , que era o ponto de controvérsia, ficava no final da propriedade e para chegar lá teríamos que atravessar a tábua estreita por cima do rio.” Ah meus deus !!!!” pensei lembrando de minha coordenação motora excelente. Chegamos na famigerada “ponte” e fiquei olhando todos passarem. Quando chegou a minha vez fui devagar, fingindo estar equilibrado e calmo. Passei no teste raspando, chegando á outra margem, Suspirei aliviado, olhando para o meu sapato lustrado e o meu terno de lã fria. “Intactos...” pensei feliz e vitorioso. Caminhamos um pouco pela trilha estreita, sempre em fila indiana e eu (como sempre ) o último da fila.Escuto um grito, precedido e um barulho de passos apressados no mato e na terra molhada. “Olha o bode!!!!!” Gritou alguém em desespero. “Um bode aqui ???”pensei eu. “ mas será que não foi o gringo que falou everybody?” Fiquei parado. De repente, passa o gringo, o perito,o advogado, o meu cliente, o assistente e o do perito, desembestados, correndo. Como sou lento, achei aquilo estranho e fiquei onde estava. Num relance avisto um bode. Chifrudo, com aqueles olhos castanhos sem pupila e bufando.”Ih... um bode. Vou correr” pensei eu. Iniciei a minha fuga do bode maluco eu só conseguia pensar em não sujar o meu terno de lã fria e meu sapato lustrado. Me esforcei tanto que estava parecendo aqueles corredores de corrida rústica, meio correndo meio andando. O bode se aproximando. Finalmente avisto a ponte estreita sobre o riacho. Olho pra trás e o bode raivoso estava quase me alcançando. Corro de verdade e alcanço a ponte, dou início a travessia, que nunca foi tão longa. Quando estou bem no meio da ponte, me desequilibro e.... Tchibum!!! Caio no Riacho com meu terno de lã fria e meu sapato lustrado. Olho pra uma margem e vejo o bode, bufando e raspando a pata dianteira no chão. Olho pro outro lado e vejo a comitiva estupefata com o meu “mergulho“ e prendendo o riso. Saio do rio ,absolutamente encharcado, com a ajuda daquelas pessoas,e o que era pra ser um procedimento tenso ( no caso a perícia) acabou se transformando em algo leve. No final de tudo ainda ganhei uma toalha felpuda do gringo, e uma garrafa de mel do meu cliente. Alguns meses depois recebo a sentença pelo correio. Havia sido favorável ao meu cliente. Ligo pra ele para dar a boa nova, ele fica feliz, agradece, mas diz que o gringo tinha voltado atrás e que a relação deles estava “boa demais”. Que não precisava mais da sentença. A vida talvez seja assim. Por mais que vc mergulhe, por mais que vc entre na chuva e se molhe, os acontecimentos seguem uma lógica própria, que independem da sua vontade. Ou não.

Nenhum comentário:

Postar um comentário